O objetivo final do Partido Comunista
Umberto Martins *
Orientado pela ideologia dominante, o senso comum costuma identificar o
sistema comunista com as experiências socialistas da União Soviética, leste
europeu, Cuba, Vietnã e China, entre outras. Mas esta visão não é amparada pela
realidade histórica e geralmente embute uma deturpação grosseira da teoria
marxista.O comunismo é o objetivo final do Partido Comunista. Um
objetivo que só pode ser alcançado após a supressão da divisão social do
trabalho e das classes sociais, condições para a extinção do Estado e das
organizações partidárias, incluindo o próprio Partido Comunista.
Socialismo e comunismoConvém notar que, embora dirigidas
pelos comunistas, nenhum regime originado das revoluções proletárias ocorridas
ao longo do século 20 se proclamou comunista. A União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS), como o próprio nome sugere, reivindicava, em primeiro lugar,
o socialismo.A República Popular da China (RPC), fundada após a
revolução de 1949, também se define como socialista. Vejamos o que reza o Artigo
1º da atual Constituição chinesa: “A República Popular da China é um Estado
socialista subordinado à ditadura democrático-popular da classe operária e
assente na aliança dos operários e camponeses”.O comunismo concebido
pelos marxistas é um sistema social muito mais avançada do que o socialismo que
conhecemos, pois supõe o fim das classes e do Estado. O socialismo, segundo
Marx, é um processo mais ou menos longo (dependendo do desenvolvimento da
produtividade e da consciência social) de transição para o comunismo, no qual
permanecem as classes sociais e a luta entre elas, a lei do valor, a divisão do
trabalho, o mercado e outras heranças correlatas.Regime de
transiçãoO tema é comentado por Marx na famosa “Carta a Weydemeyer”,
de 5 de março de 1852, onde o pensador alemão explica: “não me cabe o mérito de
haver descoberto nem a existência das classes nem a luta entre elas. Muito antes
de mim, historiadores burgueses já haviam descrito o desenvolvimento histórico
dessa luta entre as classes e economistas burgueses haviam indicado sua anatomia
econômica. O que eu trouxe de novo foi: 1) demonstrar que a existência das
classes está ligada somente a determinadas fases do desenvolvimento da produção;
2 que a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado
[leia-se socialismo]; 3) que essa própria ditadura nada mais é que a transição à
abolição de todas as classes e a uma sociedade sem classes.”A
experiência histórica revelou que o processo de transição do socialismo ao
comunismo é muito mais complexo, instável e longo do que em geral se supunha. É
preciso ponderar o fato de que a revolução proletária não ocorreu nos países
onde o capitalismo estava mais maduro (Inglaterra, Alemanha, França e EUA),
conforme imaginavam os fundadores do marxismo. Consequentemente, não contou com
uma base material avançada e se defrontou com tarefas características da
revolução burguesa, como a reforma agrária. A produtividade baixa
induziu os líderes revolucionários a estimular o desenvolvimento de relações
capitalistas de produção, seja através da Nova Política Econômica (NEP). No caso
da União Soviética (1921-1927), ou das reformas na direção de uma economia
socialista de mercado na República Popular da China. O processo de transição a
uma sociedade sem classes tende a atravessar séculos.Produtividade e
consciênciaO comunismo depende de um nível de produtividade bem
maior do que o atual e uma consciência social igualmente mais avançada, conforme
reiterou Lênin, para acabar com a escassez relativa (que é e será sempre uma
fonte de conflitos sociais) e erigir uma sociedade de abundância, na qual as
classes, a divisão social do trabalho e o Estado deixam de ter razão para
existir e desaparecem.Produtividade e consciência social caminham de
mãos dadas e o desenvolvimento das forças produtivas deve ser considerado uma
condição indispensável à transição ao comunismo. A nova sociedade pode parecer
uma mera utopia, mas é preciso lembrar que Marx e Engels rejeitaram o socialismo
utópico que prosperou no continente europeu durante os séculos 18 e 19
atribuíram à teoria do socialismo um status científico. Trata-se de um projeto
ousado para a história humana pelo qual vale a pena lutar, pois confere a esta
um significado que não é religioso ou idealista, mas materialista e
humanista.
FONTE: www.vermelho.org.br
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